TODAS AS FOMES
No caos, o sonho se faz presente. Entre tremores de terra e a doce ilusão, as fomes se fizeram presentes. Fome de verdade, de poesia, de liberdade...Fome e gana. Gana de viver melhor. Gana de suplantar as limitações que nos são impostas. Gana de estrangular com as próprias mãos os nossos carrascos. Os poetas, estes seres inomináveis, que subvertem as idéias e as palavras romperam com as correntes. Todo canto de liberdade vem do cárcere. Mas ali, ela era um organismo vivo e real. Pulsando em mil megatons. Vibrando com um milhão de vozes. O caos e os abismos nos chamam. Para ouvir The Doors e dançar. Para simplesmente levitar. Tire o seu sorriso do caminho, que eu quero passar com a minha dor, já dizia Cartola. E esta dor, poetas, mortais e loucos, é a falta de tesão, de paixão. Ou excesso. Excesso de paixão também causa dor. E a dor gerada por este excesso gera poesia.
Façamos como os Surrealistas. Mudar o mundo e mudar a vida. Metamorfosear as entranhas e nossos sonhos. Lentamente revirar as entranhas do nosso viver. Dancemos ao som de Noel. Dancemos ao som de qualquer canção que nos enleve a alma.
Não acredite em deuses que não sabem dançar. Não acredite em deuses que não sejam poetas. Lancemos nossos dados no infinito e construímos nosso amanhã. Este esperado amanhã que cante o novo mundo. Este esperado amanhã onde o tesão e o carinho caminhem juntos, onde o amor não seja vendido a preços módicos nas esquinas. Este esperado amanhã que revire as nossas vidas e nos transforme. Que a nossa estranha dor se espalhe pelos cantos, que penetre nas mentes dos incautos. Que espatifem as mentes dos poderosos.
Messias, patrões, chefes supremos. Nada esperemos de nenhum. Vibremos a flauta de nossas vértebras no ritmo das estrelas. Bailemos com as ondas deste mar de indignidade, de vontade de mudança.
Façamos do sonho e da ilusão nossas bandeiras. O mundo real nos tolhe. O mundo real nos castra. Nos aprisiona. Mas é neste mundo cruel e insano em que vivemos. Cabe a nós transforma-lo. Cabe a nós poeta-lo.
Assim, no limiar deste tempo que insiste em aprisionar nossos versos, sejamos terroristas. Sejamos loucos a inverter ocasos. Bailemos nas estrelas e cantemos nossas alegrias, nossas dores. A todos vocês, meu canto. A todos vocês, o sonho reconstruído em versos. Versos vivos de uma poesia vibrante. De uma poesia com alma, gana e sonho. Da poesia que vibre em nossos ossos. Que seja um blues, um lamento, um choro. Que seja um samba, um rock, um xote. Que nos faça rir insanamente. Que seja somente poesia.
Aos poetas do mundo. Vastos são os desertos, minha alma. Mas mais vastos sejam nossos versos...
E nesta vastidão semeie o sonho...
Darwin Ferraretto
Dia 20 21 de maio de 2006
Logo após o Sarau “Todas as Fomes”
Da Escola Livre de Literatura de Santo André