JANELAS DE ERATO


01/06/2006


MANHÃ

 

Toda manhã saia quietamente ouvindo os pássaros, num passo lento, sonhador. Descia a ladeira com cuidado, logo às seis. Chegava no ponto e ali esperava uns quinze minutos até seu ônibus passar. Naquele dia se atrasou. Acordou mais tarde, saiu apressado, tropeçou no caminho, caiu. Perdeu as estribeiras e já ia xingando quando olhou em volta. A sua frente, uma moça estendia a mão para ajudá-lo. Ele aceita, sorri sem jeito, agradece. Os dois continuam o caminho. Estava atrasado mesmo...não ia esquentar mais. Trocam algumas palavras, telefones. Chegou atrasado, levou  bronca do chefe, sorrindo por dentro, e foi trabalhar.

 

Escrito por DARWIN às 20h11
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SAPATOS VERMELHOS

 

Ganhou-os dele. Vermelhos, lindos. Nunca os usara. Achava-os vulgares. “Sou mulher séria”. Como tivera coragem? Naquele dia notou nos rotineiros uma mancha. Furiosa, pegou os vermelhos. Não combinava com a roupa. Trocou-a: Um vestido vermelho, com decote generoso. Saiu para trabalhar. O porteiro seguiu com os olhos, cobiçando. Na empresa, começou a digitar aquela carta. O chefe chama. Ela entra, curva-se mostrando os seios. Ele fica excitado, ela percebe. Puxa-o pela gravata, dando-lhe um beijo. Ele levanta o vestido, tira a calcinha, coloca-a na mesa. Tira a calça e a penetra. Ela morde os lábios para não gritar...

 

Escrito por DARWIN às 20h10
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SERÁ?

 

Era calado, tímido. Não gostava de farra, não contava vantagens. No trabalho perguntavam: “Será?” Tranqüilo, não ligava. Quando saia com o pessoal, bebia quietamente. Ouvia aos causos com atenção. Aos comentários como: “olha aquela ...” dava um sorriso. Várias vezes apresentaram-lhe mulheres. Conversava um pouco, só isto. “Não pode ser. È mesmo. Desprezar esta...” Na festa de fim de ano ela surge. Loira, linda, corpo escultural. A rodearam. “Tudo bem?” Ela responde, ninguém entendeu. Ele se aproxima. Fala na língua estranha. Começam a conversar. Olham estupefatos. Ele a abraça. Saem juntos, agarrados. Estava feito: bonita, inteligente, filha do dono...

 

Escrito por DARWIN às 20h10
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ATRÁS DA PORTA

 

Manhã de outono, caminha quieto. No farol, pára. Olha atento. Atravessa apressado. Na banca olha as revistas. Compra uma e segue. No quarto, folheia-a. Cansado de trabalhar de noite e não dormir de dia, daquela pensão onde não ficam quietos, etc. A dona, uma megera, a filha, um tesão. Mas o dinheiro era curto e ficava perto do trabalho. Tinha que economizar, diziam... Vai ao banheiro coletivo, toalha nos ombros. Na cozinha, toma água. A dona  observa, a filha sai calada. A porta do banheiro aberta, entra...pendura a toalha, fecha a porta e vê a filha, nua...

Escrito por DARWIN às 20h09
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INSÔNIA

 

Vira de um lado, de outro. De bruços. Barriga prá cima. Lado esquerdo, direito. Levanta, banheiro, um copo d’água. Fecha melhor a cortina. Deita novamente. Amanhã trabalha e sono nada. Inquieta, vai para o chuveiro. Prefere a banheira, para relaxar. Água quente, sais, etc. Nela acaricia o corpo. Sente falta de algo...toca o ventre. Os dedos roçam. O desejo cresce .Telefona, chama o vigia. Este sobe, campainha. “Porta está aberta, aqui no banheiro”. Entra, calado. Nua, ela o agarra. Ele se despe,  transam loucamente. Uma, duas, três. Dorme extenuada. Telefone toca cedo: “ Serviço feito, seu marido está morto...”

Escrito por DARWIN às 20h09
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NO CIRCO

 

Era pau prá toda obra. Fazia de tudo, lavava elefante, alimentava  bichos. Mas picadeiro, nem pensar. Fraco demais para trapezista, triste demais para palhaço. Olhava Zaninha balançando no trapézio. Desejo enorme. Aquele corpo gostoso. Resignado, continuou o trabalho. Todos caiam em cima. E ela não ligava. Limpou o coxo, tirou a merda, alimentou o leão. Era dia de espetáculo. Saudades de casa. Queria ser artista, virou faxineiro. Ficou de canto. Respeitável público... Zaninha passa, ele arma o circo, ela olha com desejo. Sai, vai deitar. Quase dormindo, sente algo. Olha surpreso: os lábios de Zaninha o engoliam inteiro.

Escrito por DARWIN às 20h08
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PELADA

 

Sábado, os meninos se juntam na rua. Surge uma bola, dois times. Cinco de cada lado, vira seis, acaba doze. Vamos com cuidado, que  o Lunático não devolve a bola, diz um. Fica frio, ele está viajando,  outro. Começa o jogo. Correm atrás da bola. Um a zero.. Empate. Dois, três a um. Na entrada da área, um tenta o chute, falta. Bate rápido, segundo gol. Recomeça o jogo. A bola pinga, um chutão. Sobe e cai onde não devia. Sobem no muro, barulho de chuveiro. Olham. A empregadinha tomava banho. O jogo acaba, o enredo da bronha, garantido.

Escrito por DARWIN às 20h08
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ESPELHO PARTIDO

 

Maria levanta, cara amarrada,  toma banho. José boceja, volta a dormir. Ela, diarista, ele vigia. Ela está cansada, ele com bafo de pinga. Enquanto a mulher se veste, Zé ronca. Sai apressada, casa da dona Biloca. Muito trabalho, pouco dinheiro. Fazer o que? Necessidade...Enquanto ela varre, Zé ronca. Passa o tempo. Almoço: esquenta comida, ele levanta, cerveja. Ela esfrega, uma cachaça. Lava, mais uma. Arruma o quarto, outra. Vai para casa, ele, cambaleando, para o trabalho. Três meses sem. Médico, nem pensar. O chefe estrila, ele reage.  Bala na testa, na casa deles o espelho cai no chão.

 

Escrito por DARWIN às 20h07
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 NO METRÔ

 

Sexta-feira, sete da manhã. Metrô lotado, Jonas tenta entrar, não consegue. Com certeza, outra bronca por atraso; o chefe não largava do pé. Brigava com a mulher, descontava nele. Que culpa tinha do zero à zero deles? Mais um, entra. A loja abre às oito, mas ele entra sete e meia. Matutando, olha a moça ao lado. Bonita, bem vestida. Com certeza, estudante. Ele, um duro. Não era para o seu bico. Mas o desejo falou forte. Alguns olhares. Ele comenta qualquer besteira, ela responde. Conversam, trocam telefones. No almoço, liga. Conversa rápida, o cineminha da noite, garantido.

Escrito por DARWIN às 20h07
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EM POUCAS PALAVRAS

 

Fim de expediente, sexta-feira. Numa mesa do boteco do Ananias, Eufrásio belisca um torresmo e beberica. Passa Dolores, morena jeitosa, bunda avantajada. Ele segue com os olhos. Pensa:  “Se não fosse casada”. Pensa novamente: “Burro amarrado também pasta”. Paga a conta. Sai do bar. Caminha, na direção da casa dela. O marido fazendo hora-extra. Encontram-se na porta da padaria. Ele cumprimenta, ela responde. “Como está?” diz ele. Reclama do marido. “Muito trabalho,  pouco carinho”. “Podemos dar um jeito”. Ela olha desconfiada,  mas assente. Vão para casa dela. Naquela noite, marido e mulher levariam uma comida de rabo.

Escrito por DARWIN às 20h07
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FLA-FLU

 

Domingo, dia de Fla-Flu. Decisão do campeonato carioca. Jeremias sai de casa. Camisa do Mengo. Cidinha, nos trinques, faz charme. Ele não dá bola. Maracanã lotado. A torcida grita, explodem os fogos. Começa o jogo. Bola prá lá, bola prá cá. Faltas, escanteios, laterais. A bola rola, o Mengão no ataque. Cidinha dá uma volta, o Flu quase faz gol. Esbarra em Josemar...torcedor do Botafogo. Pinta um clima. Bola rolando, troca de olhares. Zero à zero, um café. Enquanto no Maraca, Jeremias vibra quando Zico entra de bola e tudo, na casa da Cida, o careca entra sem bola...

Escrito por DARWIN às 20h06
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voltando a vaca fria...

comecei a elaborar uma série de mini-contos..."100 palavras"...onde toda a trama se desenvolve em exatos 100 vocábulos - incluindo o título...

Escrito por DARWIN às 20h05
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21/05/2006


TODAS AS FOMES

 

No caos, o sonho se faz presente. Entre tremores de terra e a doce ilusão, as fomes se fizeram presentes. Fome de verdade, de poesia, de liberdade...Fome e gana. Gana de viver melhor. Gana de suplantar as limitações que nos são impostas. Gana de estrangular com as próprias mãos os nossos carrascos. Os poetas, estes seres inomináveis, que subvertem as idéias e as palavras romperam com as correntes. Todo canto de liberdade vem do cárcere. Mas ali, ela era um organismo vivo e real. Pulsando em mil megatons. Vibrando com um milhão de vozes. O caos e os abismos nos chamam. Para ouvir The Doors e dançar. Para simplesmente levitar. Tire o seu sorriso do caminho, que eu quero passar com a minha dor, já dizia Cartola. E esta dor, poetas, mortais e loucos, é a falta de tesão, de paixão. Ou excesso. Excesso de paixão também causa dor. E a dor gerada por este excesso gera poesia.

 Façamos como os Surrealistas. Mudar o mundo e mudar a vida. Metamorfosear as entranhas e nossos sonhos. Lentamente revirar as entranhas do nosso viver. Dancemos ao som de Noel. Dancemos ao som de qualquer canção que nos enleve a alma.

Não acredite em deuses que não sabem dançar. Não acredite em deuses que não sejam poetas. Lancemos nossos dados no infinito e construímos nosso amanhã. Este esperado amanhã que cante o novo mundo. Este esperado amanhã onde o tesão e o carinho caminhem juntos, onde o amor não seja vendido a preços módicos nas esquinas. Este esperado amanhã que revire as nossas vidas e nos transforme. Que a nossa estranha dor se espalhe pelos cantos, que penetre nas mentes dos incautos. Que espatifem as mentes dos poderosos.

Messias, patrões, chefes supremos. Nada esperemos de nenhum. Vibremos a flauta de nossas vértebras no ritmo das estrelas. Bailemos com as ondas deste mar de indignidade, de vontade de mudança.

Façamos do sonho e da ilusão nossas bandeiras. O mundo real nos tolhe. O mundo real nos castra. Nos aprisiona. Mas é neste mundo cruel e insano em que vivemos. Cabe a nós transforma-lo. Cabe a nós poeta-lo.

Assim, no limiar deste tempo que insiste em aprisionar nossos versos, sejamos terroristas. Sejamos loucos a inverter ocasos. Bailemos nas estrelas e cantemos nossas alegrias, nossas dores. A  todos vocês, meu canto. A todos vocês, o sonho reconstruído em versos. Versos vivos de uma poesia vibrante. De uma poesia com alma, gana e sonho. Da poesia que vibre em nossos ossos. Que seja um blues, um lamento, um choro. Que seja um samba, um rock, um xote. Que nos faça rir insanamente. Que seja somente poesia.

Aos poetas do mundo. Vastos são os desertos, minha alma. Mas mais vastos sejam nossos versos...

E nesta vastidão semeie o sonho...

 

Darwin Ferraretto

Dia 20  21 de maio de 2006

Logo após o Sarau “Todas as Fomes”

Da Escola Livre de Literatura de Santo André

 

 

Escrito por DARWIN às 15h09
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30/04/2006


FRAULEIN

 

 

Nesga de azul batendo nas avenidas

e um pedaço de riso oculto gerando rosas

esquecem na esfera das nuvens

um pouco de lembranças vadias

Assim, um lance de dados,

bolas girando entre quintais

percebem no instante

a mesma quietude dos rios...

Pausas da palavra estremecida

germinando com o temporal

das quimeras

Nesga de azul estrelada entre versos

espantando os jasmins vermelhos

bailando nos arrabaldes

aquecem a menina

e fazem soar os sinos

da escuridão

Como um pedaço de sonho

pairando entre as orquídeas

estremece as estruturas

e dança, quietamente

Escrito por DARWIN às 15h39
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LITOGRAFIA

 

 

“Tire o seu sorriso do caminho

Que eu quero passar com a minha dor”

Cartola

 

Tenho gravado de forma indelével,

em rocha vulcânica, magma de tantos anos,

os meandros da minha dor...

Basta de sorrisos talhados por etiquetas,

quero antes, a lágrima sincera.

Esculpindo as faces inquietas da cidade,

formões e cinzéis,  rasgando o espaço

e o tempo de simplesmente esperar.

A quietude, esta dança de pausas

percorrendo os salões do imemoriável,

brinca com as palavras, pedaços incautos

do teu riso ou da minha dor...

Escrito por DARWIN às 15h37
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